GOVERNANÇA CORPORATIVA NO ESPORTE

Por Fabio Aires da Cunha

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O esporte brasileiro, em especial o futebol, carece de uma administração mais profissional. Os clubes, em sua maioria, apresentam dívidas imensas e não conseguem solucionar os problemas financeiros, inclusive aumentando essas dívidas a cada ano. Aplicar os conceitos de Governança Corporativa nos clubes e entidades esportivas pode ser uma das soluções para a verdadeira profissionalização do esporte brasileiro.

Marques e Costa (2009) afirmam que a adoção da Governança Corporativa auxilia no processo de reconstrução administrativa e financeira dos clubes: “As práticas de boa governança tratam de assuntos que estão relacionados à direção e ao controle de uma organização, como o exercício do poder e os diferentes interesses envolvidos” (p. 120).

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC (2010, p. 19), em seu Código das Melhores Práticas da Governança Corporativa, define que:

Governança Corporativa é o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, Conselho de Administração, Diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para sua longevidade.

 

Coloca ainda que os princípios básicos são: transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Os principais benefícios dessa prática estão relacionados à transparência, imagem e gestão das empresas.

Segundo a Organization for Economic Co-operation and Development (apud REZENDE; FACURE; DALMÁCIO, 2009), os princípios de Governança Corporativa incluem políticas macroeconômicas, graus de competição nos produtos, serviços e mercado. Para Andrade e Rossetti (apud MARQUES, COSTA, 2009), algumas práticas internas, como a constituição de conselhos de administração, o monitoramento compartilhado e a remuneração de administradores, também devem ser adotadas.

A aplicação dos princípios e métodos de Governança Corporativa no esporte brasileiro ainda caminha lentamente. Esse conceito deveria ser implementado para ajudar os gestores esportivos na sua prática diária.

A Governança Corporativa está muito relacionada com a transparência administrativa. Inúmeras leis regulamentam o funcionamento dos clubes, como prestação de contas, divulgação dos demonstrativos contábeis e outros. A transparência nas ações é determinada por práticas organizadas de gerenciamento, ações essas que contribuem para a aplicabilidade dos conceitos de Governança Corporativa.

Estudo realizado por Rezende, Facure e Dalmácio (2009) com 27 clubes do futebol brasileiro constatou que todos os clubes possuem um índice baixo de Governança Corporativa. Foram analisados cinco pontos, sendo: evidenciação; conselhos; estrutura e funcionamento; ética e conflito de interesses; direitos e propriedades e retorno social. O clube com maior índice ficou em 45% e a média dos clubes ficou abaixo dos 29%. Como comparativo, foi realizado semelhante estudo com o F. C. do Porto, o clube português atingiu um índice de 60%. Esses valores demonstram a situação caótica em que se encontra a administração dos clubes de futebol no país.

Rezende, Facure e Dalmácio (2009) destacam que a simples mudança do clube de associação para uma sociedade anônima não é a solução para a profissionalização da instituição. As práticas dos conceitos de Governança Corporativa e transparência na administração é que poderão ocasionar mudanças efetivas e eficazes na organização das entidades esportivas.

Problemas financeiros sempre são as desculpas de dirigentes para a má administração e maus resultados. Como explicar então que clubes ou equipes sem grandes recursos financeiros atingem bons resultados, vencendo inclusive equipes com melhor estrutura, recursos financeiros superiores e mais tradição?

Para citar alguns exemplos:

  • Taça Libertadores da América de 2004: a equipe colombiana do Once Caldas foi campeã, derrotando equipes tradicionais como Santos, São Paulo e Boca Juniores.
  • Eurocopa de 2004: a Grécia foi campeã, desbancando favoritos como Inglaterra, Portugal, Itália, Alemanha, Espanha, França, República Tcheca e Holanda.
  • Campeonato Paulista de 1990: o Bragantino, até então um desconhecido time do interior paulista, foi campeão, derrotando na final outra equipe pequena do interior, o Novorizontino.
  • Campeonato Mineiro de 2005: Ipatinga campeão.
  • Copa do Brasil: alguns títulos inesperados de equipes consideradas pequenas, como: Criciúma (1991); Juventude (1999); Santo André (2004); Paulista (2005).

O segredo está no planejamento, organização e na administração com conhecimento, capacitação e responsabilidade. O planejamento deve ser constantemente reavaliado e readaptado à nova realidade. Para Roche (2002), o planejamento é um processo que não pode ser separado da direção. O autor afirma ainda que todo diretor de futebol deve dedicar tempo para fazer um planejamento em médio e longo prazo, pois o planejamento é um processo contínuo e permanente no tempo.

Uma boa administração começa com a determinação dos objetivos da equipe/clube, objetivos esses que devem ser analisados e estipulados com os “pés no chão” sem loucuras, delírios e vaidades pessoais. Para o treinador Muricy (apud OSTROVSKY; RAMALHO, 2007), os objetivos devem ser claros, não podem ser guiados pela emoção. Zanetti e Russo (2000) destacam a falta de foco, de um objetivo claro, como um grave problema nas organizações. Segundo Roche (2002); Silva, Rebouças e Neves (2007), o planejamento estratégico é fundamental na administração dos clubes de futebol.

Ainda de acordo com Roche (2002), os clubes profissionais devem aderir ao planejamento estratégico, principalmente pelas tendências e mudanças que estão ocorrendo no fenômeno esportivo. O planejamento estratégico está ligado ao longo prazo, aos caminhos e orientações que uma entidade deve seguir no futuro e aos objetivos de uma organização.

No início do planejamento, a comissão técnica deve saber quais os objetivos da diretoria para assim traçar suas metas. “Estou convencido de que no futebol atual nada se consegue sem planejamento” (MURICY apud OSTROVSKY; RAMALHO, 2007, p. 53).

Com a determinação dos objetivos, os dirigentes devem traçar estratégias de marketing para conseguir arrecadar os recursos financeiros para atingir esses objetivos, quer sejam para pagar salários, oferecer infraestrutura, material de treinamento e outros.

Problemas comuns na administração do futebol são os desperdícios, desvios e erros de estratégias e de administração. Muitos querem dar o “passo maior que a perna” e acabam por não atingir o planejado, contraindo dívidas que afundarão cada vez mais os clubes.

O continuísmo dos dirigentes é mais um entrave no futebol. Deve-se acabar com a prática dos dirigentes de se perpetuarem no cargo. A presidência deve ser por tempo determinado (dois a três anos) e no máximo com uma reeleição, assim como na política nacional. Apenas em casos de clubes-empresas, que possuírem um dono, aí essas instituições terão seu próprio regimento, mas esse não é o caso da grande maioria dos clubes brasileiros.

Os dirigentes não percebem que é a falta de organização que afasta as empresas de investirem no futebol (BRUNORO; AFIF, 1997). Não é o futebol que não gera lucro. O futebol bem administrado pode trazer um grande retorno financeiro para empresas que investirem no esporte. Somente é necessário fazer um planejamento em curto, médio e longo prazo, com metas claras a serem atingidas por meio de um plano de marketing.

Uma administração competente e responsável pode conduzir um trabalho extremamente profissional com recursos financeiros plausíveis e sem excessos. De acordo com Barros (1990); Silva, Rebouças e Neves (2007), o futebol evoluiu, mas os nossos dirigentes não. Continuam comandando os clubes como feudos sem organização profissional. É necessária uma administração profissional com pessoas competentes e com verdadeiro conhecimento administrativo. Para Brunoro e Afif (1997), os clubes precisam colocar pessoas ou empresas especializadas para administrar o futebol, os administradores esportivos devem seguir a tendência da evolução do esporte e se capacitar para gerir o clube com conhecimento técnico, profissionalismo e transparência. Segundo Carravetta (2006, p. 88), “a coordenação da gestão administrativa deve ser desempenhada por um profissional com experiência no futebol e com entendimento de Administração Esportiva.” Ainda segundo o autor, outro grave problema é a nomeação de amigos sem competência profissional para cargos diretivos dentro dos clubes, assim os conchavos e conivências ficam mantidos.

Em nome do alto valor econômico do negócio, o futebol ou qualquer outra modalidade esportiva devem ser administrados como empresas sérias, às claras, em que todos os envolvidos devem proceder como profissionais responsáveis, cada um dentro de sua especialização e função. (BORSARI, 2002, p. 53).

Para Fleury (1998) e Unzelte (2002), os clubes europeus já perceberam há anos que o futebol é um negócio lucrativo e deve ser gerido com seriedade e organização. A maioria dos clubes se tornou empresa, inclusive colocando suas ações na Bolsa de Valores. Além disso, vendem diversos produtos, aumentando significativamente o seu investimento em marketing. Barros (1990) coloca ainda que o futebol é um comércio e os clubes deveriam investir mais na infraestrutura, melhorar os campos e construir centros de treinamento. Borsari (2002) afirma que atualmente todo esporte é um negócio.

Sendo um negócio que movimenta cerca de US$ 250 bilhões por ano inserido no mundo globalizado (CARRAVETTA, 2006), como deixar de ter uma administração profissional?

De acordo com Silva, Rebouças e Neves (2007) deve ocorrer uma mudança do sistema atual, arcaico e amador, para um sistema moderno, profissional e organizado. “Somente com organização e profissionalismo um time terá progressos no futebol” (BRUNORO; AFIF, 1997, p. 48).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dirigentes com pouca capacidade gestora estão sujeitos à interferência externa e pressão de torcedores e mídia; com isso, pressionam os treinadores por resultados imediatos. O planejamento a médio e longo prazo acaba não ocorrendo devido à cobrança excessiva por vitórias e conquistas. Todo o trabalho feito e planejado pela comissão técnica pode ser jogado no lixo por consequência de duas ou três derrotas.

O esporte competitivo moderno é uma profissão, uma ciência, um negócio e, como tais, deve evoluir e ser gerenciado de maneira profissional e não passional, entenda-se amadora. A paixão fica por conta do torcedor, todos os profissionais de um clube, do presidente ao porteiro, do técnico ao atleta, devem possuir conhecimento, capacidade e competência para exercerem suas funções e gerarem lucro e conquistas para a empresa em que trabalham – um clube esportivo. Uma empresa só é lucrativa com resultados e os resultados só são alcançados com trabalho profissional, com planejamento, com organização e conduzido por pessoas gabaritadas e competentes.

Os clubes devem ser geridos como empresas, independentemente da modalidade e do objetivo final. Mesmo instituições sem fins lucrativos devem aplicar os princípios da Governança Corporativa e de sustentabilidade.

No mundo globalizado, onde a informação está acessível a todos e em qualquer lugar, não é concebível que as entidades esportivas sejam gerenciadas sem planejamento, sem conhecimento técnico, de forma amadora, e não tenham projetos de desenvolvimento sustentável. Planejamento exige reflexão, avaliação, análise e investimento, não só financeiro, mas vontade, interesse, responsabilidade e profissionalismo.

A salvação dos clubes brasileiros passa, em primeiro lugar, pela administração profissional e com responsabilidade. Jogadores com qualidade não faltam no Brasil, mas a condução dos clubes deve garantir que esses atletas atinjam o seu potencial máximo e possam no futuro dar o retorno do investimento ao clube.

Portanto, chegamos ao fim do esporte conduzido e controlado por “amadores”. Estamos na era da informação e do conhecimento. Com os avanços tecnológicos que temos hoje, não se pode mais aceitar dirigentes que trabalhem sem responsabilidade e que liderem essas entidades com total empirismo. O esporte deve estar concatenado com os mais modernos conceitos científicos nas mais diversas áreas: de treinamento, econômica, fisiológica, esportiva, psicológica, médica, administrativa, tecnológica, saúde, sociológica, de mídia e de marketing.

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Referências Bibliográficas:

BARROS, J. M. de A. Futebol: Porque foi… Porque não é mais. Rio de Janeiro: Sprint, 1990. Cap. 2, p. 15-19.

BORSARI, J. R. A evolução do futebol: o combate à violência e o resgate da ética e do fair play. São Paulo: EPU, 2002.

BRUNORO, J. C.; AFIF, A. Futebol 100% profissional. São Paulo: Gente, 1997.

CARRAVETTA, E. S. P. Modernização da gestão no futebol brasileiro: perspectivas para a qualificação do rendimento competitivo. Porto Alegre: AGE, 2006.

FLEURY, S. Competência emocional: o caminho da vitória para equipes de futebol. São Paulo: Gente, 1998.

Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Disponível em: <http://www.ibgc.org.br>. Acesso em: 27 fev. 2010.

MARQUES, D. S. P.; COSTA, A. L. Governança em clubes de futebol: um estudo comparativo de três agremiações no estado de São Paulo, R. Adm, São Paulo, v. 44, p. 118-130, abr./maio/jun. 2009.

OSTROVSKY, I.; RAMALHO, M.. São Paulo Campeão. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2007.

REZENDE, A. J.; FACURE, C. E. F.; DALMÁCIO, F. Z. Práticas de governança corporativa em organizações sem fins lucrativos. 9º Congresso USP de Controladoria e Contabilidade. São Paulo: USP/FEA/EAC, 30 e 31 de julho de 2009.

ROCHE, F. P. Gestão desportiva: planejamento estratégico nas organizações desportivas. Tradução de Pedro Fossati Fritsch. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.

SILVA, A. P. S.; REBOUÇAS, L.; NEVES, L. G. A indústria do futebol. Monografia (Graduação) – Faculdade de Tecnologia Carlos Drummond de Andrade, São Paulo. 2007.

UNZELTE, C. O livro de ouro do futebol. São Paulo: Ediouro, 2002.

VIANA, E. O poder no esporte. Rio de Janeiro: Sprint, 1994.

ZANETTI, E.; RUSSO, R. Administração, futebol & cia.: metáforas do futebol aplicadas ao mundo empresarial. São Paulo: Negócio Editora, 2000.

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